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Artigo

PERGUNTE E RESPONDEREMOS 527/Maio 2006

Livros em Destaque

Ainda uma vez:

 

‘O DOCE VENENO DO ESCORPIÃO’

por Bruna Surfistinha

 

Em síntese: O livro relata minuciosamente, e usando jargão pró­prio, as experiências de uma jovem prostituta que, após "vender o seu corpo" (como ela mesma diz) durante três anos, concebeu o nojo de tal exercício e resolveu abandoná-lo para se casar e construir um lar. O pe­cado atrai docemente, mas atraiçoa o seu cliente, fazendo-o sofrer.

*     *     *

Já em PR 526/2006, pp. 132-134 foi considerado o caso de Bruna Surfistinha ou Raquel Pacheco, que passou três anos na prostituição, con­cebeu nojo por "vender seu corpo" (como ela mesma diz) e resolveu pre­parar-se para o casamento e a maternidade. Deixou ao grande público o relato de suas experiências em linguagem da gíria respectiva, que tem por título: "O Doce Veneno do Escorpião"[1]. Pode-se dizer que a leitura desse livro é pesada, pois explana todos os meandros possíveis do relaciona­mento sexual entre seres humanos. Em conseqüência vão, a seguir, apre­sentados trechos que ajudem a compreender o drama da ex-prostituta.

 

1. "Trabalho" e Salário

"Sozinha, trabalhando de segunda a sexta, faço de 25 a 30 progra­mas por semana. Tem dias que rola até mais de cinco, mas também não é legal passar muito disso. Cada programa, aqui no meu flat, dura uma hora e, por 200 reais, faço oral e vaginal. Se quiser anal, já sobe para 250 reais (isso foi depois da minha participação no Pânico, em junho, quando resolvi aumentar um pouquinho, já que a procura aumentou: antes, du­rante muuuuito tempo, cobrava 150  reais e 200, respectivamente). Quantas vezes der para fazer nessa uma hora. E não precisa pagar mo­tel, flat, nada: está tudo incluído. A menos que o cliente queira ir ao motel ou queira me chamar no hotel dele (aí, cobro o dobro, por conta do des­locamento). Com esse jeito de trabalhar, já me permito folgar nos fins de semana. Com todo mundo não é assim? Por que com uma garota de programa seria diferente?" (pp. 113).

"Fiquei fazendo várias contas das coisas que quero comprar - e de quanto precisava para poder comprar e me tornar "ex" de tudo isso, so­mando o que eu já havia economizado. Daí, deu um absurdo, tipo qui­nhentos paus. Haja programa. Eu não tenho como conseguir isso... Fui eliminando um monte de coisas da minha "lista de desejos" e cheguei a 300 mil reais.

Ganhar essa dinheirama, a princípio, assusta, porque é muito di­nheiro. Mais ainda se a gente considerar o jeito que ganho. Então tive a idéia de dividir esses 300 mil reais em cotas, para amenizar - e eu não sentir tanto. A conta foi simples: 300 mil divididos por quinhentas cotas = seiscentos reais cada cota. Peguei uma folha de papel e numerei de um a quinhentos. Assim, a cada seiscentos reais que consigo guardar e deposi­tar no banco, vou lá e risco o número correspondente da cota. Quando não tiver mais o que riscar, saberei que consegui os 300 mil. Na verdade, já cortei outros itens da minha lista e baixei o total para 200 mil. Mas acho que, se chegar nos 100 mil, eu paro, mesmo não comprando apartamento. De qualquer forma, já tenho meus planos de futuro. Tem meses que consigo economizar até 8 mil reais. Parece que o futuro está chegando." (pp. 118s)

 

2. O Nojo de tal Exercício

Continua a Surfistinha:

"Da mesma forma que entrei nessa, sei que vou sair. Não quero ser prostituta o resto da vida. Trabalho para isso. Primeiro, me livrei do agenciador. Não vou dar metade ou mais do que ganho para ninguém. Sim, tem um lado ruim de trabalhar sozinha que é a insegurança. Aten­der em um flat ajuda um pouco" (p. 112).

"Quando este livro estiver lançado, eu não estarei mais fazendo programas. Não sei qual o dia exato de outubro, só sei que será antes do meu aniversário. O presente que me darei.

Quero que os meus pais saibam e entendam que tudo o que fiz foi em nome da minha felicidade. Para sermos felizes, precisamos sempre de abrir mão de algo. Não dá para termos tudo de uma vez.

Tive a sorte de encontrar o homem da minha vida fazendo progra­mas. Sei que não são todas as garotas de programa que têm o mesmo final feliz.

Vou me aposentar, mas continuarei com o blog até o último dia de minha vida. Ainda quero escrever nele que 'amanhã será o meu casa­mento' ou que 'o meu filho nasceu ontem'. E espero mais ainda que es­tes fatos aconteçam com o Pedro.

O importante na vida é nunca desistir de buscar a felicidade" (p. 113).

 

3. Em casa dos pais

A adolescência de Bruna (Raquel) foi marcada por conflitos entre a menina e os pais. Quiseram interná-la na FUNABEM. Bruna descreve as repercussões desse clima no íntimo seu:

"Toda essa confusão, a descoberta do desejo, as fofocas, a perda dos amigos, o fato de eu ter sido sempre gordinha, tudo me levou a um lance doloroso. Eu fiquei com depressão, tomava Prozac e tudo. Uma neura de engordar de novo, no meio disso tudo, me levou à bulimia. En­chia a cara com doces e depois, na maior, enfiava os dedos na garganta e... virou uma compulsão. Eu tinha fome, comia muito, acho que devido ao remédio e à ansiedade, para em seguida sair correndo da mesa e colocar tudo para fora. Quando voltava da escola, passava por uma loja e comprava, todo santo dia, vinte reais em doces e chocolates. Pratica­mente engolia tudo de uma vez, só para sentir o gosto, e, dois minutos depois, dava um jeito de tirar aquilo de mim. Minha mãe sacou, até pelo barulho da descarga depois de cada refeição e de cada escapada. Para disfarçar, comecei a vomitar em um jornal, só para não precisar dar a descarga.

Sei lá por que veio essa maldita depressão. Quer dizer, até sei: me achava gorda, feia, era adotada, tinha um monte de problemas com meu pai... Quando cheguei aos 16 anos, depois dos desacertos no Bandei­rantes e de a história ter me perseguido também no Imaculada, me vi, não bastasse tudo isso, sem amigos. A situação chegou em um ponto do qual não via saída. Planejei me matar" (pp. 55s).

 

REFLETINDO

O caso de Bruna Surfistinha leva a pensar.

Em linguagem crua e realista descreve ela como "vendia seu cor­po", deixando-se manipular por seus clientes em troca de boas quantias. A situação dessa jovem enojada por quanto lhe aconteceu tem suas raízes, em grande parte, no ambiente do lar, ambiente que a levou a sair de casa. Seja ponderado o seguinte:

1)  Todo ser humano, especialmente na infância e na adolescência, tem necessidade de se sentir amado, nem sempre com amor festivo, mas com amor paciente e abnegado. Este amor forma a personalidade; parece ter faltado a Bruna.

2)  A educação religiosa tem grande peso na formação de alguém. Ora em todo o livro de Bruna não ocorre uma só vez o nome de Deus; falta a referência à Religião, o que redunda em horizontes materialistas e em procurar ganhar dinheiro para sobreviver.

O valor da educação religiosa é assim mais uma vez evidenciado. Possa Bruna descobrir o esteio de sua nova vida em Deus, que nos falou e fala por Jesus Cristo presente na sua Igreja!



[1] Panda Books, São Paulo 2005 (4a impressão), 167 pp.

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