REFLEXõES (2039)'
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Artigo

PARA ENTENDER A LEGITIMIDADE DA PIEDADE POPULAR.

A LEGITIMIDADE DA PIEDADE POPULAR AOS SANTOS E A SANTA MÃE DE DEUS
Prof.: Ricardino Lassadier(*). Fonte: blog do prof. Lassadier

I
Antes de refletirmos sobre a piedade popular é importante notarmos que o culto prestado a Virgem Maria brota do fato de reconhecermos sua divina maternidade. Santo Irineu de Lião que viveu entre 140 a 202 nos faz entender a importância da maternidade divina de Maria: “Assim como Eva foi seduzida pela fala do anjo e afastou-se de Deus, transgredindo a sua palavra, Maria recebeu a boa-nova pela boca de anjo e trouxe Deus em seu seio, obedecendo à sua palavra. Uma deixou-se seduzir de modo a desobedecer a Deus, a outra deixou-se persuadir a obedecer Deus, para que da virgem Eva, a Virgem Maria se tornasse advogada. O gênero humano que fora submetido à morte por uma virgem, foi libertado por uma virgem; a desobediência de uma virgem foi contrabalançada pela obediência de uma Virgem…” (1995, p.569). O “sim” de Maria anulou o “não” de Eva. Mas o “sim” mariano foi sua aquiescência em tornar-se Mãe do Verbo que se fez carne nela. Em 431 o Concílio de Éfeso, sob o pontificado do Papa Celestino I definiu: Cristo é uma só Pessoa e tem duas naturezas. E Maria é Theotokos, ou seja, Mãe de Deus. Foi em virtude desta missão inigualável que Maria foi preservada do pecado original. E é por ela ser Mãe de Deus que pode-se dizer que ninguém colaborou como ela no plano da salvação. Ensina-nos o Papa João Paulo II (2003, p. 158): “O mistério da maternidade divina e da cooperação de Maria na obra redentora suscita nos crentes de todos os tempos uma atitude de louvor, quer para o Salvador quer para com Aquela que O gerou no tempo, cooperando assim na redenção”. A piedade ou devoção popular nasce no bojo desse desejo dos fies em manifestarem seu louvor e amor a Virgem Mãe de Deus e Nossa.

II
Iniciemos nossa reflexão tomando a seguinte passagem bíblica: “Enquanto Jesus assim falava, uma mulher levantou da multidão e disse: ‘Feliz o ventre que te trouxe e os seios que te amamentaram” (Lc 11, 27). Essa expressão brotou de uma mulher simples que estava presente em meio da multidão. É a manifestação de louvor que demonstra espontaneidade, e não é, portanto, fruto de uma meditação calculada demoradamente. É, diríamos, um simples impulso imediato e, de certo modo inocente. É em sentido último expressão de piedade popular.
Vejamos a seguinte definição: “Piedade Popular é a maneira pela qual o cristianismo se encarna nas diversas culturas e se manifesta na vida do povo. Trata-se, pois de diferentes manifestações culturais de caráter privado ou comunitário, que no âmbito da fé cristã se exprimem não com os elementos da Sagrada Liturgia, mas através da formas peculiares, que nascem do jeito do povo, de sua etnia ou cultura” (KRIEGER, 2005, p. 6). Isto é, a piedade popular tem o seu berço no contato da Igreja com as mais variadas culturas.
Algumas pessoas não bem informadas, ou mal formadas (ficamos tentados em dizer, “deformadas”), supõem que a Igreja “não vê com bons olhos” a piedade popular. Isso, absolutamente, não é verdade! O que a Igreja – como Mãe que é – se preocupa é com a educação de seus filhos. O princípio básico para a educação do povo, no que tange a devoção popular, se estabelece nos seguintes termos: O culto popular à Virgem (assim como aos demais santos), deve levar o fiel a olhar para Deus, a adorá-lo e, ao mesmo tempo, despertar a consciência do amor e do serviço ao próximo. Desse modo, as devoções marianas são cristocêntricas e logicamente trinitárias. É o que nos diz o Santo Padre Paulo VI: “É da máxima conveniência, antes de mais nada, que os exercícios de piedade para com a Virgem Maria exprimam de maneira clara, a característica trinitária e cristológica que lhes é intrínseca e essencial. O culto ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo, ou conforme se expressa a Liturgia, ao Pai por Cristo no Espírito” (MC, 25). Também o Sumo Pontífice João Paulo II ensina sobre o Rosário, que é uma das devoções mais preciosas: “o Rosário é, de fato, ainda que caracterizado pela sua fisionomia mariana, no seu âmago é oração cristológica. Na sobriedade de sues elementos, concentra a profundidade de toda a mensagem evangélica, da qual é quase um compêndio” (RVM, 1). Ambos os Pontífices ressaltam o valor Cristológico e Trinitário que deve ser o centro da devoção popular. Se assim não fosse, a devoção popular em geral e a mariana em particular ganharia um caráter idolátrico, pois estaríamos colocando a Virgem no lugar do próprio Deus e não seria um culto, uma oração cristã, uma oração católica.
Quando, por exemplo, rezamos o Terço, sem dúvida, estamos prestando um culto à Virgem Maria, porém o culto que a Igreja dirige a ela difere do culto prestado a Deus. O culto que é prestado a Deus é um culto de latria (adoração), de reconhecimento a uma potência criadora e redentora. Sobre essa questão explica-nos João Paulo II (2003, p.161): “Com o termo ‘adoração’ é indicada a forma de culto que o homem presta a Deus, reconhecendo-O como Criador e Senhor do universo”.
O culto prestado aos Santos é denominado dulia (veneração, admiração). O culto dedicado a Nossa Senhora é um culto de hiperdulia, dizendo popularmente, “super admiração”, que é inferior apenas ao culto prestado a Deus. Felipe Aquino (2002, p.123) explica: “Para a Igreja Católica o culto dos santos é perfeitamente legítimo porque quando enaltece as suas vidas e os seus atos, antes de tudo, está glorificando a Deus, já que os santos nada seriam sem a graça de Deus”. Em outras palavras, se desenvolvemos uma piedade popular mariana é verdade que estamos cultuando Maria, mas é igualmente verdade que o centro do culto mariano é e sempre será Deus.
O culto dedicado a Santa Mãe de Deus é a realização de uma profecia que brotou espontaneamente dos lábios da própria Virgem de Nazaré: “A minha alma engrandece o Senhor, e meu espírito se alegra em Deus meu Salvador, Ele olhou para a humildade de sua serva. Todas as gerações me chamarão bem-aventurada” (Lc 1,46-48). A Igreja sempre nos lembra que a salvação está em Jesus, ou melhor, é ELE a nossa salvação. Porém, a Igreja não quer esqueçamos que a salvação inicia na Encarnação, isto é, no ventre de Maria; a salvação começa por Maria. Poeticamente poderíamos dizer que a semente da salvação foi plantada do terreno fértil que é o ventre de Maria.

III
Neste terceiro ponto gostaríamos de refletir um pouco acerca de uma prática que é muito recomendada pela a Igreja e que o povo muito aprecia: A Procissão.
Algumas práticas, na Igreja são muito difíceis de precisar historicamente seu início, a procissão (ou procissões), está entre elas. Mas, em todo caso, tentaremos ao menos buscar seu sentido bíblico e o fundamento teológico-espiritual à luz da Tradição e do Magistério.
Tomemos como ponto de partida a Escritura Sagrada que nos oferece sólidos fundamentos, vejamos a seguir.
Abrão – que futuramente seria denominado Abraão – é chamado por Deus a deixar sua terra, seus parentes em virtude de uma promessa: “O Senhor disse a Abrão: ‘Sai de tua terra, do meio de teus parentes, da casa de teu pai, e vai para a terra que eu te vou mostrar. Farei de ti uma grande nação e te abençoarei: engrandecerei teu nome de modo que ele se torne uma benção. Abençoarei os que te abençoarem e amaldiçoarei os que te amaldiçoarem. Em ti serão abençoadas todas as famílias da terra’. Abrão partiu como o Senhor lhe havia dito, e Ló foi com ele. Abrão tinha setenta e cinco anos ao parti de Harã. Ele levou consigo sua mulher Sari, seu sobrinho Ló e todos os bens que possuíam, além dos escravos que havia adquirido em Harã. Assim partiram rumo à terra de Canaã, e ali chegaram. Abrão atravessou o país até o santuário de Siquém, até o carvalho de Moré. Os Cananeus viviam então nessa terra. O Senhor apareceu a Abrão e disse: ‘darei esta terra à tua descendência’. Abrão ergueu ali um altar ao senhor, que lhe tinha aparecido” (Gn 12, 1-9). É certo que não temos aqui os elementos objetivos de uma procissão, mas indiretamente podemos encontrar certos fundamentos. Abrão se desacomoda, se desinstala, se põe a caminho por Deus, não vai só, e vai sob a promessa de benção e um destino. Será que não temos aqui certos aspectos de uma procissão?
Uma outra passagem que pode nos fornecer uma referência sobre a tradição das procissões é o transporte da arca da aliança que continha as tábuas da Lei: “Davi reuniu novamente a elite de Israel, num total de trinta mil homens. E puseram-se a caminho, ele e todo o povo que o acompanhava, em Baala de Judá, para trazer de lá a arca de Deus, sobre qual é invocado o nome do Senhor dos exércitos, que está sentado sobre os querubins. Instalaram a arca de deus sobre um carro novo, tirando-a da casa de Aminadab, na colina. Oza e Aio, filhos de Aminadab, conduziam o carro novo. Oza ia ao lado da arca de Deus e Aio ia à frente. Davi e toda a casa de Israel dançavam diante do Senhor com todo entusiasmo cantando ao som de cítaras, harpas, pandeiros, sistros e cimbalos” (2Sm 6,1-5). Notemos que o transporte da arca constitui-se verdadeiramente em uma procissão.
Todos os anos celebramos a Páscoa no contexto da “grande semana” ou “semana santa”. Como todos sabemos a “semana santa” tem início com o “domingo de ramos”, com a “procissão de ramos” que marca a entrada triunfante de Jesus em Jerusalém. Alguns irmãos de algumas comunidades eclesiais (protestantes) nos criticam por isso, porém esquecem que a primeira procissão de ramos foi realizada pelo próprio Jesus que vinha montado em um jumentinho e: “A numerosa multidão estendeu seus mantos no caminho, enquanto outros cortavam ramos de árvores e os espalhavam no caminho. As multidões, na frente e atrás dele aclamavam: ‘Hosana ao filho de Davi! Bendito o que vem em nome do Senhor! Hosana no mais alto dos céus’. Quando Jesus entrou em Jerusalém, a cidade inteira ficou alvoroçada, e diziam: ‘Quem é este?’ E as multidões respondiam: ‘este é o profeta Jesus, de Nazaré da Galiléia” (Mt 21, 8-11). É bom lembrar que a procissão foi preparada e desejada pelo próprio Senhor, tanto que alguns disseram que Jesus deveria repreender os discípulos ao que ele respondeu: “Eu vos digo: se eles se calarem, as pedras gritarão” (Lc 19,40). Será que devemos nos calar e não mais fazermos nenhuma procissão? Ou talvez, nosso Senhor deva repetir a advertência citada anteriormente?
A Igreja, ao realizar as procissões, torna presente uma tradição religiosa pautada na Bíblia, porém para melhor compreendermos vejamos o que o Magistério nos diz a partir da seguinte citação do Concílio Vaticano II: “Portanto, até que o Senhor venha em sua majestade e com ele todos os anjos (cf.  Mt 25,31) e destruída a morte, todas as coisas lhe forem sujeitas (cf. 1Cor 15,26-27), alguns dentre seus discípulos peregrinam na terra, outros, terminada esta vida, são purificados, enquanto que outros são glorificados, vendo ‘claramente o próprio Deus Trino e Uno, assim como é’; todos, contudo, em grau e modo diverso participamos da mesma caridade de Deus e do próximo e cantamos o mesmo hino de glória ao nosso Deus” (LG, 49). A citada passagem da Constituição Dogmática Lumen Gentium faz uma clara referência às três dimensões da Igreja: a militante, a padecente e a gloriosa. A dimensão gloriosa é aquela em que os componentes já se encontram puros e santos e habitam na presença de Deus; a dimensão padecente é a aquela em que os componentes já estão salvos, entretanto não inteiramente purificados, daí precisam passar por essa purificação (realidade do purgatório) para que possam participar da dimensão gloriosa.
A dimensão militante é esta na qual nos encontramos, estamos ainda militando, lutando no mundo presente em caminho do Reino Eterno. A presente dimensão é também denominada de “peregrina”, justamente por estar a caminho da Jerusalém Celeste. Nesta marcha, o Senhor caminha conosco (cf. Mt 28,20), com sua Igreja. Pois bem, nesse sentido podemos dizer que a Igreja em sua dimensão militante, peregrina é uma Igreja em procissão, pois é uma Igreja que caminha com Jesus. O que caracteriza uma procissão é caminhar em direção de uma meta, mas guiados pelo Senhor em nosso meio. Desse modo toda procissão representa essa caminhada que trilhamos à Jerusalém Celeste.
Mas talvez alguém pergunte: Se é assim então, seriam legitimas as procissões dos santos padroeiros e de Nossa Senhora? Uma procissão verdadeiramente não seria só aquela em que o Santíssimo estivesse em meio a nós? É preciso entender que quando realizamos a procissão de São Bento ou de Santa Catarina de Alexadria, de São Francisco de Assis ou de São Paulo, de Santa Terezinha ou de São José, de São Domingos de Gusmão ou de Santa Maria Goretti, de Santo Antonio de Santana Galvão ou São Justino, de São Vicente da Paula ou Santa Teresa de Ávila, e até a famosíssima procissão do Círio de Nossa Senhora de Nazaré (realizada a cada segundo domingo de outubro em Belém do Pará) – dentre tantos outros – estamos dizendo que também estes santos caminham conosco mediante suas intercessões e seus exemplos. Ao mesmo tempo o Senhor caminha conosco visto que muitos irmãos nossos foram e são santos justamente por viverem em comunhão com Deus.
Portanto, não há problema algum em realizarmos as procissões, apenas devemos ser prudentes e buscarmos caminhar com a Igreja e não separados dela. Conscientes desses aspectos tomemos no andor a imagem da Virgem Maria e caminhemos, pois o Senhor estará caminhando conosco.

BIBLIOGRAFIA GERAL:
-KRIEGER, Murilo. Maria na Piedade Popular. São Paulo: Paulus, 2005.
-MONTFORT, Luiz Maria Gringnion de. Tratado da Verdadeira devoção à Santíssima Virgem Maria. Anápolis-GO, 2002.
-AQUINO, Felipe. Porque sou Católico. Lorena-SP: Cléofas. 2002.
DOCUMENTOS PONTIFÍCIOS:
-JÕAO PAULO II. Encíclica Rosarium Virginis Marie, sobre o Rosário. São Paulo: Paulinas, 2002.
- Natureza do Culto Mariano. In: AQUINO, Felipe (Org.). A Virgem Maria – Papa João Paulo II: 58 Catequeses do Papa sobre Nossa Senhora. Lorena-SP: Cléofas, 2003.
- O culto da Bem-aventurada Virgem. In: AQUINO, Felipe (Org.). A Virgem Maria – Papa João Paulo II: 58 Catequeses do Papa sobre Nossa Senhora. Lorena-SP: Cléofas, 2003.
-PAULO VI. Exortação Apostólica Marialis Cultus. 1974. SITE: Vaticano.
-Constituição Dogmática Lumen Gentium. In: Compêndio do Vaticano II: Cosntituições, Decretos, Declarações. Petrópolis-RJ: Vozes, 1995.
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*O autor é graduado (Licenciado e Bacharel), em Filosofia (UFPa), Especialista em Filosofia (Epistemologia das Ciências Humanas pela UFPa), Pós-graduado em Teologia (Moral) com ênfase em bioética. Professor do IRFP (História da Filosofia Moderna e Contemporânea). Leciona na Escola Diaconal Santo Efrém da Arquidiocese de Belém (Antropologia Teológica, Escatologia); Leciona na Escola de Teologia Para Leigos (CCFC), as disciplinas Teologia Fundamental, Mariologia e Escatologia. Ministra o Curso “Estudo do Catecismo da Igreja Católica: Razões e fundamentos da Fé”, no CCFC. Ministra o Curso “Matrimônio: Uma missão de amor”, sobre a teologia do Matrimônio. É professor da Rede Pública Estadual.


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