LITURGIA (2217)'
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Artigo

Conversando Sobre Liturgia: O olhar de um Leigo.

CONVERSANDO SOBRE LITURGIA*
Professor Ricardino Lassadier*(23/10/2010)

Inicialmente gostaria de dizer que é para mim uma alegria estar aqui refletindo um pouco sobre liturgia. Como disse é uma alegria, mas é também uma honra e uma responsabilidade. Faço-me entender: estou aqui a falar para um grupo de seminaristas, eu, um simples leigo, chamado a discorrer sobre alguns aspectos acerca da liturgia, que é um tema sobre o qual – certamente – vocês têm mais conhecimento do que eu. Pensei um pouco sobre isso: Por qual razão, Deus, me colocou em uma situação que pode ser muito bem traduzida pelo ditado popular: “ensinar o Pai Nosso ao vigário”? Em que eu poderia contribuir? Bem, diante dessa questão decidi manifestar o que um leigo conhece sobre liturgia a partir do que é posto pela Sã Doutrina, entremeando tal exposição com algumas breves reflexões de cunho filosófico, com o objetivo de incomodá-los um pouco ao que se refere ao nosso assunto no caminho de suas ordenações.

Antes de entrar em nosso assunto central, permitam-me realizar brevíssimas observações de sentido antropológico. O homem é um ser que efetivamente gosta de celebrar momentos que sejam ricos de significados (aniversários, formaturas, conquistas realizadas na vida, etc.). Esta característica humana já se fazia presente nos primórdios da humanidade. Também desde os primórdios “o homem buscou formas de se comunicar com a divindade; isto em todos os povos seja através de danças, músicas, usando elementos da natureza como flores, plantas, animais, frutas, etc. É tendência inata no homem” (AQUINO, 2004, p. 9). A liturgia manifesta essa necessidade de o homem se comunicar e se encontrar com Deus. Ao que se refere de modo específico, à liturgia católica, é enorme a quantidade de dúvidas que os fiéis têm, logo é enorme a quantidade de dúvidas sobre esse encontro com Deus. Então, vamos algumas considerações partindo do sentido inicial do que significa liturgia.

O termo liturgia vem do grego leitourgia. Na Linguagem grega, o termo leitourgia quer significar obra ou serviço público. Com o passar do tempo, desde o séc. III a.C. leitourgia começou a expressar o culto religioso aos deuses da Grécia antiga. Isso nos faz entender que o culto religioso na Grécia tinha como característica ser oficial e público. Inicialmente podemos destacar uma característica da liturgia: Esta associada a uma realizada de modo público. Em um primeiro momento se referia a qualquer obra depois passou a ser associada ao rito religioso. A Partir do N.T. O termo leitourgia passou a ter, dependendo da sua aplicação, três sentidos: Profano (sustento realizado a partir de algum trabalho público), ritual (referia-se ao ofício, ao culto religioso), vivencial (a vida do fiel cristão é, toda ela um grande culto a Deus).

Com o passar do tempo, o desenvolvimento da história da Igreja e o enriquecimento constante da Tradição pelo Espírito Santo, a palavra leitourgia passou a se referir mais estritamente ao ofício divino, ao culto sagrado. Aparentemente pode parecer, função desse estreitamento, que ocorreu um empobrecimento da expressão e logicamente, da compreensão, mas não foi bem assim. Ocorreu justamente o contrário, um aprofundamento mais rico sobre o sentido da Leitougia em sentido cristão. A Palavra passou a ser empregada mais estritamente à celebração eucarística, pois, se compreendeu que na Eucaristia, a vida do cristão já se faz presente na vida de Cristo. Em sentido mais “concreto chama-se Liturgia à celebração da Eucaristia e dos demais sinais sacramentais e a reza da liturgia das horas”. (DOTRO e HELDER , 2006, p. 96).

A Igreja assim se expressa: “A Palavra ‘liturgia’ significa originalmente ‘obra pública’, ‘serviço da parte do povo e em favor do povo’. Na Tradição cristã ela quer significar que o povo de Deus toma parte na ‘obra de Deus’. Pela liturgia, Cristo Nosso redentor e sumo sacerdote, continua em sua Igreja, com ela e por ela, a obra de nossa redenção” (CIC, 1069). Desse modo, pela liturgia da Igreja, Cristo, continua agindo ou como diz Bento XVI: “a Liturgia tem como sujeito próprio Cristo Ressuscitado e glorificado, no Espírito Santo que inclui a Igreja, na sua salvação” (SC, 36). Isso significa que a celebração litúrgica não é um rito vazio, aliais, na celebração litúrgica temos a reunião do sentido pleno de toda ação da Igreja Corpo Místico de Cristo. Em sentido amplo, o anúncio do Evangelho, bem como, toda ação caritativa tomam parte no significado da liturgia, são “liturgias”, já que são ações que manifestam culto a Deus realizadas por Cristo mediante a Igreja. Então, sendo a liturgia ação de Cristo, é ao mesmo tempo, ação da Igreja. Daí que a celebração litúrgica é um sinal visível da comunhão entre Deus e os homens em Cristo Jesus (cf. CIC, 1071).

O homem, como ser simbólico que é, apresenta uma receptividade natural para os sinais, desse modo, para a liturgia (cf. FABER, 2008, p.24). Tal afirmação é importante por nos permitir compreender que a liturgia apresenta dois aspectos: um humano e um divino. O aspecto humano refere-se ao rito, ao sinal, ao que podemos empiricamente ver. O aspecto divino refere-se ao caráter ontológico da liturgia, isto é, refere-se à essência do sinal exterior, é o caráter invisível, que esta para além dos nossos sentidos. Logo, o sentido, o significado, o espírito, do rito da Igreja que vemos se desenvolver está enraizado e brota do coração de Deus. Dizendo de ouro modo, a legitimidade da liturgia da Igreja está em ela (Igreja) ser o sinal visível e sagrado que jorrou do coração traspassado do Cristo Crucificado. Explicamos: segundo a Tradição Patrística, o sangue e a água que jorram do coração de Cristo Crucificado (cf. Jo, 19, 31-35) simbolizam respectivamente a Eucaristia e o Batismo, em outras palavras, nesses sacramentos temos o “nascimento” da própria Igreja. Assim a Igreja, administradora dos sacramentos, da liturgia tem sua legitimação e autoridade justamente no fato de ela ter brotado do coração do Redentor.

A celebração litúrgica dos sacramentos são pontos de encontro e comunhão entre Deus e o homem, é o “espaço” onde tocamos Deus e esses “pontos” são constituídos pela Igreja. A Igreja é a realidade necessária e legítima para realizar esses “pontos de encontro”, ela é a mediadora que possibilita o encontro entre Deus e o homem. Faber (2008, p.29) explica: “A idéia de que Deus e o ser humano se encontram com liberdade pessoal não é concebível sem a mediação, tendo em vista sua diferenciação. Para o ser humano, ineludivelmente determinado por sua corporeidade e historicidade, não existe na terra nenhum encontro não-mediado com Deus”. Isto é, o homem só se comunica com Deus, só se encontra com Deus mediante uma mediação e Deus se comunica com o homem através de uma mediação. E que mediação é esta? A Igreja e nela a liturgia, os sacramentos. Nesse sentido a Igreja mediante a liturgia exerce um papel profundamente simbólico.

É bom esclarecer que tomamos o termo símbolo (do grego simbolon) não como representação de algo, porém em sentido mais originário, ou seja, símbolo em sentido originário significa unir, juntar, completar. Historicamente, símbolo era a metade de algo (um anel, um prato…) que ficava com uma pessoa e se encaixava na outra metade que havia ficado com outra pessoa quando feito um contrato, um acordo para identificar o contrato selado. Assim, possuir a metade do objeto determinado no momento do acordo firmado indicava o direito do reconhecimento e do cumprimento do pacto. Este objeto que as partes deviam apresentar para que o pacto fosse obrigatoriamente cumprido era o símbolo. Dessa forma, o símbolo possibilita e realiza a união das partes. Pois bem, ao afirmarmos que a liturgia celebrada tem um papel simbólico, estamos afirmado que ela realiza a união das partes, o encontro, a comunhão entre Deus e o homem. O Santo Padre Bento diz que na celebração litúrgica o céu desce a terra (SC, 35).

Do que até aqui foi dito deduze-se que somente a Igreja tem autoridade de “mexer” no rito litúrgico, cabe a ela essa responsabilidade e essa competência. Parece que os anos que se seguiram ao grande Concílio Vaticano II, em razão de certas interpretações inadequadas, foi um tempo de uma certa imprecaução e, em alguns caso, até desmazelo no que tange a celebração litúrgica. Tais atitudes foram alvos de fortes criticas do Santo Padre João Paulo II. Disse ele na encíclica Ecclesia de Eucharistia (EE, 52): “Temos muito a lamentar, infelizmente, que sobretudo a partir dos anos da reforma litúrgica pós-conciliar, por um ambíguo sentido de criatividade e adaptação, não faltaram abusos, que foram motivos de sofrimento para muitos. Uma certa reação contra o ‘formalismo’ levou alguns, especialmente em determinadas regiões, a considerarem não obrigatórias as ‘formas’ escolhidas pela grande tradição litúrgica da Igreja e do seu Magistério e a introduzirem inovações não autorizadas e muitas vezes completamente impróprias”. É verdade, temos abusos nas celebrações! E essas violações, segundo o Papa, têm suas raízes em um desleixo em relação à Tradição e ao Magistério. Lamentavelmente, não é incomum encontrarmos ritos inventivos fruto da subjetividade relativista e muito pouco católica, somado a isso temos a realidade de que o povo católico de modo geral não conhece a liturgia, ignora o sentido do que esta sendo celebrado. Quando há o prevalecimento dessa subjetividade relativista, ocorre o abuso. Tais abusos promovem uma profanação do sagrado. Concomitantemente, tais abusos, têm um caráter profundamente idolátrico, visto que é a subjetividade humana que é adorada no lugar de Deus.

Dado a importância da liturgia, faz-se urgente o desenvolvimento de uma adequada catequese litúrgica. Daí que “para celebrar bem a Liturgia é preciso ter uma profunda noção do que é o Cristianismo; conhecimento da história da salvação, da obra de Cristo e da missão da Igreja. Sem Isso a Liturgia não pode ser bem compreendida e amada, e pode se transformar em ritos vazios” (Aquino, 2004, p. 11). De fato, para muitas pessoas a Liturgia significa pouco ou nada! Basta lembras alguns lastimáveis exemplos: Quantos fiéis (?), nos dias da Novena de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, participam somente da Novena, deixam a igreja no momento da celebração eucarística. Quantos supõem ser “a mesma coisa” a Santa Missa e o culto realizado em uma igreja protestante. Por outro lado, também é verdade que há, por vezes negligência por parte daqueles (ministros ordenados e leigos envolvidos com a pastoral litúrgica) que têm a responsabilidade de preparar bem a celebração. A igreja é suja, mal iluminada, som ruim, cânticos inapropriados, leituras mal proclamadas, homilias mal realizadas. Mas tudo isso decorre, de uma falta de fé no Mistério celebrado.

Pelo vigésimo quinto aniversário da Sacrosactum Concilium, João Paulo II lançou uma carta apostólica: Quintus Annus Vicesimus (QAN) em 1988. Nesta carta, o Santo Padre fala que a liturgia exige a participação consciente e ativa dos fiéis (QAN, 10). Ora, isso só é possível mediante uma educação na fé, uma catequese litúrgica. No mesmo documento (QAN, 13), o Papa cita alguns erros que, segundo ele, não podem ser tolerados: músicas inadequadas, invenção de ritos, abusos na prática da absolvição geral, sacerdotes que inventam orações eucarísticas, substituição das Escrituras por textos seculares. Mas lamentavelmente os erros continuaram, tanto que em 2003, João Paulo II disse taxativamente que sentia “o dever de fazer um veemente apelo para que as normas litúrgicas sejam observadas com grande fidelidade na celebração eucarística. Constituem uma expressão concreta da autêntica eclesialidade da Eucaristia; tal é seu sentido mais profundo. A liturgia nunca é propriedade privada de alguém, nem do celebrante, nem da comunidade onde são celebrados os santos mistérios” (EE, 52).

Gostaríamos de concluir dizendo juntamente com D. Estevão Bettencourt (1989 p. 442): “A Liturgia não é toda a atividade da Igreja, mas vem a ser a fonte e o cume de toda a atividade. Fonte porque dela recebem os fiéis a graça necessária para ser cristãos e agir como tais. Cume porque toda a atividade da Igreja tende à comunhão de vida com Cristo e na Liturgia a Igreja manifesta e comunica aos fiéis a obra da salvação realizada uma vez por todas pelo Senhor Jesus”. Parece, termos esquecido que a Liturgia nos traz a redenção conquistada pelo sangue de Cristo Jesus, por isso o momento litúrgico é um momento sagrado é o tempo de Deus que deve ser vivido, celebrado em harmonia com o que é posto pela Igreja, caso contrário pervertemos nosso encontro com o Senhor.

*Síntese da palestra realizada aos seminaristas da Diocese de Marabá.

*O autor é graduado (Licenciado e Bacharel), em Filosofia (UFPa), Especialista em Filosofia (Epistemologia das Ciências Humanas/ UFPa).Especialista em Teologia (Teologia e Realidade com ênfase em bioética/CESUPA). Professor do IRFP (História da Filosofia Moderna e Contemporânea), Leciona na Escola Diaconal Santo Efrém da Arquidiocese de Belém (Antropologia Teológica, Escatologia); Leciona na Curso de Teologia (CCFC), as disciplinas Teologia Fundamental, Mariologia e Escatologia. É professor da Rede pública, onde leciona Filosofia.

Prof. Ricardino Lassadier

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BIBLIOGRAFIA
AQUINO, Felipe. Para entender e Celebrar a Liturgia: Termos, Objetos, Símbolos e Sinais Litúrgicos. Lorena-SP: Cléofas, 2004.
-BETTENCOURT, Estevão. Pergunte e Responderemos (Número 329). Outubro de 1989. Lumen Christi.
BENTO XVI. Exortação Apostólica Sacramentum Caritatis. São Paulo: Paulinas, 2007.
-Catecismo da Igreja Católica. São Paulo: Loyola, 2003.
-FABER, Eva-Maria. Doutrina dos Sacramentos. São Paulo: Loyola, 2008.
-DOTRO, Ricardo; HELDER, Gerardo. Dicionário de Teologia. São Paulo: Loyola, 2006.
-JOÃO PAULO II. Carta Apostólica Quintus Annus Vicesimus , 1988(Site Santa Sé).
-Carta Encíclica Ecclesia de Eucharista. São Paulo: Ed. Paulus, Ed. Loyola: 2003.

 


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